É cada vez mais comum ver pessoas fazendo atividade física devido aos seus benefícios. Com a popularização, os praticantes querem algo mais desafiador. E assim, muitos treinam o corpo, a mente, mas principalmente, desafiam os limites destes dois. A propagação dos esportes de endurance é tão notória que áreas de lazer das grandes cidades estão se expandindo. Assim, os atletas necessitam de mais espaço, mais trilhas, mais pistas, mares, entre outros terrenos.

Os esportes de endurance, assim chamados pela exigência de resistência dos seus praticantes, são excelentes para a saúde cardiovascular. Os atletas aderem a um programa de treinamento aeróbico, reeducação alimentar, vida regrada, convívio social, enfim, trazem vários benefícios à saúde. No entanto, estes atletas não estão imunes a principal causa de morte no mundo, a doença cardiovascular. Dois recentes estudos, publicados em duas importantes revistas científicas médicas, constataram a alta incidência de morte súbita e paradas cardíacas em praticantes de maratona e triatlo.

Publicado no dia 19 de setembro de 2017, no Annals of Internal Medicine, este artigo científico divulgou os dados sobre mortes e paradas cardíacas dos participantes de triatlo nos EUA de 1985 a 2016. Foram reunidos mais de 4 milhões e 700 mil praticantes para avaliar a segurança entre os atletas e traçar um perfil de risco para estes eventos. A idade média dos 135 indivíduos que sofreram morte súbita, parada cardíaca ressuscitada ou morte relacionada ao trauma foi de 46,7 anos. A morte súbita e a parada cardíaca foram observadas com maior frequência durante a natação (90 casos). Quinze mortes relacionadas ao trauma ocorreram durante o ciclismo. A incidência de morte ou parada cardíaca no triatlo dos EUA nos últimos 10 anos (de 2006 a 2016) foi de 2,40 por 100 000 em homens contra 0,74 por 100 000 em mulheres. O risco nos homens é muito mais alto (85% das mortes), elevando-se significativamente com a idade, atingindo o pico em homens acima dos 60 anos. Anormalidades cardiovasculares, como doença coronariana aterosclerótica e cardiomiopatia, foram evidenciadas em 44% dos participantes falecidos na autópsia.

No estudo publicado em 2012 na New England Journal of Medicine, fez-se uma análise muito semelhante entre corredores de maratona e meia maratona buscando mortes súbitas e paradas cardiorrespiratórias entre 2000 e 2010 nos EUA. Desta vez, o número de incidentes foi bem menor comparado ao triatlo. 59 mortes súbitas entre quase 11 milhões de participantes registrados. Cabe ressaltar que 40 mortes foram na maratona e a minoria na distância mais curta. Considerando que há muito mais praticantes de corrida do que de triatlo, o número de desfechos foi significativamente maior (mais que o dobro por 100 mil pessoas) no esporte que o atleta pratica as modalidades (natação, ciclismo e corrida). Novamente os homens são mais afetados e a faixa etária também entre 40 e 50 anos teve a maior incidência de desfechos. Neste estudo entre corredores, além da constatação da doença cardíaca isquêmica como maior causadora das mortes, conseguiram alguns dados entre 8 sobreviventes. O principal fator preditor de sobrevivência após uma parada cardíaca foi a manobra de ressuscitação proferida prontamente por um leigo.

Sim, o auxílio de um outro corredor ajudou na sobrevivência destas pessoas. Um dado interessante no estudo em triatletas é que a maioria dos eventos ocorreram dentro d´agua. Isto levanta a necessidade de maior vigilância e treinamento da equipe de staff e salva vidas. O pronto atendimento, evitando o afogamento (que é a consequência do mal súbito dentro do mar), deve ser o foco nas provas de triatlo.

Outra sugestão de Harris e colaboradores no estudo de 2017 foi a relativa inexperiência dos triatletas que foram acometidos. A estatística das 15 mortes ocorridas por trauma no ciclismo, as quais junto com os óbitos no mar, demonstram uma baixa eficácia das manobras de ressuscitação cardíaca. A impressão é que o tempo até o primeiro socorro demora mais e, portanto, as manobras não são tão eficazes. Por fim, ressalto o desafio da medicina de urgência e emergência em dar suporte adequado a este esporte de longas distâncias, variados terrenos e grandes desafios.

O que todo praticante deve fazer?

Fiquem tranquilos que não é parar de praticar triatlo. Jamais sugeriria isso, como médico e praticante do esporte. O importante é procurar orientação especializada. Há muitos profissionais na área como o médico do esporte, o nutrólogo e o cardiologista que podem dar suporte aos outros profissionais como nutricionista e o educador físico. O time deve fazer um inventário de problemas de saúde, histórico pessoal e familiar, exames laboratoriais e exames mais apurados para que possa seguir sua rotina de treinos e competir mais tranquilo.

Não fique tão tranquilo assim…afinal está neste esporte para superação. Siga em frente, mas com segurança.

Referências

Kim JH, Malhotra R, Chiampas G, et al. Cardiac arrest during long-distance running races. N Engl J Med. 2012;366(2):130-140

Harris KM, Creswell LL, Haas TS, Thomas T, Tung M, Isaacson E, et al. Death and Cardiac Arrest in U.S. Triathlon Participants, 1985 to 2016: A Case Series. Ann Intern Med. [Epub ahead of print 19 September 2017]