A morte é a única certeza na vida e você certamente já ouviu essa frase diversas vezes. No entanto, as pessoas, que costumam se planejar tão bem para inúmeros eventos incertos da vida, não refletem sobre o único deles absolutamente inevitável. Afinal, como você quer morrer?

Antes de tudo, é preciso deixar claro que a morte pode ser completamente imprevisível. Ninguém pode se planejar para, subitamente, sofrer um acidente ou ser vítima da violência brasileira cotidiana, por exemplo. Mesmo as doenças cardiovasculares (infarto, derrame) podem ocorrer sem aviso prévio. Apesar do avanço da medicina, é impossível previní-las completamente. Acreditar nisso é ilusão.

Mas como eu posso defender o direito de escolher como vamos morrer se o nosso último ato pode ocorrer a qualquer momento?

A verdade é que a morte nem sempre é tão imprevisível assim. Cada vez mais, as pessoas estão chegando ao fim da vida em leitos hospitalares, muitas vezes em centros de terapia intensiva (CTI).

Estamos na era de cuidados médicos avançadíssimos, diversas tecnologias de ponta e aparelhos fantásticos capazes de substituir funções corporais, como a ventilação dos nossos pulmões e a função dos nossos rins.

Morrer naturalmente e subitamente está cada vez mais raro. Mesmo causas como as citadas acima podem se transformar em mortes lentas e previsíveis, caso cheguem a tempo aos cuidados médicos/hospitalares. Um acidentado, que há alguns anos faleceria em poucas horas, pode se tornar um ocupante crônico de CTI, até o seu último dia.

Acredito que no momento você deve estar se perguntando: mas como desistir da vida enquanto houver esperança? Quem pode garantir que não há chance?

Essa é uma questão importantíssima, mas infelizmente sua resposta desencoraja a maioria das pessoas a decidir sobre seus atos finais. Afinal, qual é a resposta?

Ninguém é capaz de garantir que algum quadro é irreversível. A medicina não é uma ciência de certeza, mesmo que as probabilidades sejam quase de 100%. Doenças consideradas absolutamente mortais, como a Raiva, já tiveram alguns registros isolados de cura. Se você procura certeza, a medicina é o local errado.

No entanto, assim como ocorreram avanços nos tratamentos e tecnologias, a capacidade de avaliação prognóstica também evoluiu muito. Traduzindo, estamos cada vez mais preparados para dizer se um caso é irreversível ou não. Nunca teremos certeza, mas a chance de erro é muito menor.

Este é o exato ponto em que toda a discussão sobre a morte trava: nós não somos capazes de prever a morte com absoluta certeza, por isso não podemos decidir o momento de desistir.

Antes de continuar o raciocínio, é preciso deixar claro que não estou falando de eutanásia, que significa o encerramento ativo da vida. Por exemplo, o uso de uma injeção letal por solicitação do paciente. Essa é uma prática atualmente ilegal no Brasil e rende ótima discussão, mas não é o foco deste artigo.

O ponto aqui é evitar os métodos extraordinários para o prolongamento artificial da vida de pacientes irrecuperáveis. O ponto é ver a morte como parte inevitável do ciclo natural da vida e não aumentar ainda mais o sofrimento inerente ao nosso ato final.

Na teoria, o médico não só pode legalmente, como deve agir dessa maneira. Existem termos específicos para isso, mas essa não é a discussão no momento. Fato é que milhares de ressuscitações com choques, intubações e hemodiálises que ocorrem diariamente nos hospitais brasileiros poderiam ser evitadas. Porém, infelizmente a prática é bem diferente. Por quê?

Para responder, voltemos ao ponto em que falei que a discussão travava: como não é possível prever com certeza absoluta a morte, acabamos não tomando a decisão difícil de encerrar os esforços contra ela.

Ainda mais profundo do que isso é o fato de nós, médicos e profissionais de saúde em geral, não estarmos preparados para lidar com a morte. Pode parecer incoerente, mas a realidade é que nós somos treinados o tempo inteiro a sempre enfrentá-la, nunca aceitá-la como algo inevitável.

Porém, a grande questão é que isso não atinge somente os profissionais.

Afinal, você está preparado para aceitar a sua morte ou a morte de um familiar? Você já pensou se quer ser ressuscitado (desfibrilado com choque), mesmo que suas chances sejam mínimas?

É claro que os médicos podem e devem evitar realizar esforços inúteis para prolongamento artificial da vida e do sofrimento.

Contudo, só haverá uma mudança real quando nós, profissionais da saúde ou não, aceitarmos a morte como uma parte inevitável do nosso ciclo.

Só assim, as famílias começarão a aceitar a morte do seu ente querido, evitando tentativas agressivas e fadadas ao fracasso de prolongamento da vida. Só assim, as pessoas começarão a escrever declarações explicitando como gostariam de ser tratadas nos casos de morte iminente, da mesma forma que escrevem testamentos. A maioria das pessoas não sabe, mas tudo isso já é possível e completamente legal.

E, você, já pensou sobre isso?

Afinal, como você quer morrer?

 

PS: Texto dedicado ao meu saudoso avô, cujo ato final não fui capaz de modificar.